Dossiê 021
Dossiê 021 · Últimos Isolados · Em disputa

O povo mashco piro

Há mais de um século um povo da Amazônia peruana decidiu viver longe de nós. Não é um povo sem história: é um povo cuja história recente inclui uma fuga. Agora ele aparece nas praias dos rios, cada vez mais perto de estradas madeireiras — e cada aparição diz mais sobre a floresta em volta do que sobre quem sai dela.

Onde
Madre de Dios e Ucayali, Peru; Acre, Brasil
Rios
Las Piedras, Manu, Tahuamanu, Purús
População
≈ 750, segundo o governo peruano (estimativa)
Língua
variante do yine (piro), família arawak
Situação legal
regime de proteção e não contato (Lei 28.736, de 2006)
Em curso
caso na Corte Interamericana, audiência em set. 2026

Na estação seca, entre maio e setembro, os rios do sudeste do Peru baixam e deixam à mostra longas praias de areia nas curvas. É nelas que, de tempos em tempos, aparecem grupos de homens, mulheres e crianças que não vivem em aldeia nenhuma conhecida, não constam de censo nenhum e não respondem a nome nenhum que nós tenhamos dado. São chamados de mashco piro. Entre si, segundo quem conseguiu ouvi-los, usam outra palavra.

Este dossiê não tem uma pergunta a resolver no sentido em que os outros têm. Não há pedra a datar nem texto a decifrar. Há um povo vivo que escolheu não ser encontrado, e um Estado, algumas empresas, algumas organizações indígenas e alguns tribunais discutindo, neste exato momento, quanto de floresta essa escolha merece. É desse desencontro que tratam as páginas abaixo.

Uma decisão de método Existem fotografias e vídeos recentes dos mashco piro, alguns amplamente divulgados em 2024. Nenhum deles aparece aqui. As imagens deste dossiê mostram território — rio, mapa, satélite —, e nunca pessoas. O motivo está desenvolvido na seção 05; em resumo, é a mesma regra que adotamos para a Sentinela do Norte: de longe.

01Quem são, e o quanto não sabemos

Comece pelo nome, porque ele já é um problema. "Mashco" foi o rótulo aplicado por vizinhos e por forasteiros, e carrega sentido pejorativo — algo próximo de "gente bravia" na boca de quem o usava. Agentes de proteção peruanos que falam yine relataram, em 2015, que o grupo com que conversavam na beira do rio preferia ser chamado de nomole, palavra traduzida como "parentes" ou "irmãos". Usamos aqui "mashco piro" porque é o nome que aparece em leis, mapas e processos — e é por ele que o leitor vai procurar —, mas registramos a ressalva.

A língua é o dado mais firme. Eles falam uma variante do piro, ou yine, da família arawak — a mesma língua das comunidades yine que vivem rio abaixo, como Monte Salvado e Diamante. É por isso que os poucos diálogos registrados aconteceram através de intérpretes yine. E é também a primeira pista sobre a origem do isolamento: povos que falam quase a mesma língua não se separaram há milênios. Separaram-se há pouco, e por alguma razão.

O rio Las Piedras visto de drone: uma faixa de água barrenta fazendo curva entre floresta fechada, com uma praia de areia clara na margem interna
Acervo — o rio Las Piedras, em Madre de Dios. As praias que se formam na margem interna das curvas, na estação seca, são onde a maior parte dos avistamentos acontece. Foto Julio Araújo Flores e Patrick Champagne (ARCAmazon), 2018, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Sobre o tamanho do povo, a honestidade exige mostrar a dispersão. Em 1976 falava-se em vinte a cem pessoas. O IWGIA, organização internacional de apoio a povos indígenas, estimou cem a duzentos e cinquenta em 1998. O Ministério da Cultura do Peru trabalha hoje com cerca de setecentos e cinquenta, número repetido pela imprensa internacional desde 2024 e que faz deles, segundo a Survival International, o maior povo isolado conhecido do mundo.

Por que os números não fecham Ninguém contou os mashco piro. Toda estimativa é extrapolada de vestígios — acampamentos, pegadas, grupos vistos numa praia num dia — ou de sobrevoo. E não está claro se "os mashco piro" são um grupo ou vários: há famílias que aparecem no alto Madre de Dios, outras no Las Piedras, outras no Purús e no lado brasileiro, e não se sabe quanto elas se relacionam. A diferença entre cem e sete mil não é erro de conta. É a medida de quanto não sabemos.
20–100 Estimativa de 1976, a mais antiga que circula.
100–250 Estimativa do IWGIA em 1998.
≈ 750 Número de trabalho do Ministério da Cultura do Peru, o mais citado desde 2024.

02A borracha, o istmo e a fuga

O isolamento dos mashco piro tem data aproximada, e ela coincide com o pior capítulo da história amazônica do fim do século XIX. Quando o ciclo da borracha chegou ao alto Ucayali, nos anos 1880, a escravidão já estava formalmente abolida no Peru desde 1854 — e foi substituída pela peonagem por dívida, em que o trabalhador indígena nunca terminava de pagar o que o patrão dizia que ele devia. Em 1891, a maior parte dos piro do Urubamba estava endividada com um único seringalista, Carlos Fermín Fitzcarrald.

Fitzcarrald entrou para a história, e para o cinema, por uma façanha de engenharia: em 1894 abriu a passagem por terra entre a bacia do Ucayali e a do Madre de Dios, arrastando uma embarcação a vapor por um istmo de poucos quilômetros. O que o cinema não contou é o que veio com a passagem. Com ela, o alto Manu — território mashco piro — ficou ao alcance dos seringalistas. Os relatos da época e a historiografia posterior descrevem a matança de grande parte dos mashco piro do alto Manu pelo bando armado de Fitzcarrald entre 1893 e 1894. Fontes regionais falam em centenas de mortos; nenhum número dessa época é confiável, e é justo dizer só isso: foi um massacre, e ele está documentado.

Mapa antigo em tons de papel envelhecido mostrando rios sinuosos e uma linha reta cortando por terra entre eles, com o título Plano del Istmo Fiscarrald, Lima 1903
Acervo — o "istmo Fiscarrald" num plano oficial peruano de 1903: rios sinuosos dos dois lados e, entre eles, o atalho por terra. Foi por esse caminho que a frente da borracha chegou ao alto Manu. Plano de Georg M. von Hassel, reduzido por Rafael E. Baluarte, Lima, 1903, domínio público, via Wikimedia Commons.

Depois do massacre veio a captura. Entre 1897 e 1909, segundo a historiografia regional, mashco e piro foram escravizados ao longo do Purús e do Madre de Dios por Carlos Scharff, que fora capataz de Fitzcarrald. Há registro de levantes — como o de 1903 no Tahuamanu, em que trabalhadores de seringal foram mortos e, em represália, indígenas foram caçados.

A leitura que a antropologia faz desse período é direta, e é a mais importante deste dossiê: o grupo que hoje chamamos de mashco piro é, muito provavelmente, descendente de quem fugiu. Gente que viu o que o contato com os seringais produzia e se embrenhou nas cabeceiras dos rios, onde os barcos não chegavam. O isolamento não é um estado original. É uma resposta — e uma resposta que deu certo por mais de cem anos.

Fotografia antiga em preto e branco de um rio largo e calmo entre paredões de floresta, com galhos de árvore pendendo sobre a água à esquerda
Acervo — o rio Las Piedras fotografado em 1907, a cento e três quilômetros da foz, num levantamento dos rios do oriente peruano. É do período em que a frente extrativista subia esses rios — e em que os mashco piro se afastavam deles. Carlos Larrabure i Correa, Noticia histórico-geográfica de algunos ríos de nuestro Oriente, Lima, 1907, domínio público, via Wikimedia Commons.

03O território no papel

O território dos mashco piro não respeita fronteira: vai das cabeceiras do Madre de Dios, atravessa o Las Piedras e o Tahuamanu e chega às nascentes do Acre, do Iaco, do Chandless e do Purús, já no Brasil. No papel, porém, ele está fatiado em pedaços com nomes e datas diferentes.

Do lado peruano, o pedaço maior é a Reserva Territorial Madre de Dios, criada em 22 de abril de 2002 por resolução do Ministério da Agricultura, com 829.941 hectares. Mais ao norte, no alto Purús, há a Reserva Indígena Mashco Piro, de 816.057 hectares, criada como reserva territorial em 1997 e convertida em reserva indígena em julho de 2016 — ela fica sobreposta ao Parque Nacional Alto Purús. O Parque Nacional do Manu, ao sul, também abriga grupos isolados. As duas cifras de reserva, quase iguais, são confundidas com frequência na imprensa; são áreas diferentes.

A lei que rege tudo isso é a Lei 28.736, de maio de 2006, conhecida como Lei PIACI — sigla para povos indígenas em isolamento e em contato inicial. Ela consagra o princípio do não contato: o Estado não procura esses povos, e restringe a entrada de terceiros nas reservas. Mas a lei, em sua redação original, admitia exceções para exploração de recursos considerada de "necessidade pública" — e é nessa brecha que boa parte do conflito se instala.

O problema central é que a reserva de 2002 ficou menor que o território. A FENAMAD, federação indígena do Madre de Dios, vinha documentando a presença dos isolados desde 1999 e propôs uma área muito maior; segundo a federação, a reserva criada reconheceu cerca de um terço do que fora identificado. Em setembro de 2016, uma comissão multissetorial do Estado aprovou o estudo que convertia a reserva territorial em reserva indígena — categoria de proteção mais forte — e a ampliava em cerca de 240 mil hectares. Dez anos depois, isso ainda não aconteceu. Parte da área de ampliação está ocupada por concessões florestais: em fevereiro de 2025, uma reportagem do OjoPúblico contou catorze delas ali dentro.

Mapa da fronteira entre Peru, Brasil e Bolívia com o rio Las Piedras e o afluente Pariamanu destacados em azul, correndo de noroeste para sudeste até Puerto Maldonado, entre os parques nacionais Alto Purús e Manu
Mapa — o rio Las Piedras e seu afluente Pariamanu, entre o Parque Nacional Alto Purús, o do Manu e a fronteira com o Acre. Os confrontos de 2024 aconteceram nessa bacia. O mapa não traz os limites das reservas indígenas, que não estão nas camadas abertas do OpenStreetMap usadas aqui. Mapa © colaboradores do OpenStreetMap, editado por UliHeiral, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Do lado brasileiro, o passo mais recente é de janeiro de 2025: a Funai publicou portaria de restrição de uso da Terra Indígena Mashco do Rio Chandless, no Acre, com pouco mais de 538 mil hectares nos municípios de Santa Rosa do Purus, Manoel Urbano e Sena Madureira. A restrição proíbe a entrada sem autorização e a extração de recursos enquanto a terra não for demarcada.

829.941 ha Reserva Territorial Madre de Dios, criada em 2002. Ainda não convertida em reserva indígena.
≈ 240 mil ha Ampliação aprovada em 2016 por comissão multissetorial e nunca efetivada.
14 Concessões florestais dentro da área de ampliação, segundo o OjoPúblico, fev. 2025.
538 mil ha Terra Indígena Mashco do Rio Chandless, no Acre, com restrição de uso desde jan. 2025.

04Os aparecimentos, 2007–2015

Durante a maior parte do século XX os mashco piro foram uma presença inferida: trilhas, acampamentos abandonados, roças saqueadas, um encontro violento aqui e ali — como o ataque fatal a madeireiros no Tahuamanu, em agosto de 1998. A partir do fim dos anos 2000 isso muda. Eles começam a ser vistos, e com frequência crescente.

Em setembro de 2007, ecólogos sobrevoando o Alto Purús filmaram de helicóptero cerca de vinte pessoas na margem do Las Piedras. Em 2011, o padrão já era outro: grupos passaram a aparecer nas praias do alto Madre de Dios, à vista de barcos de turismo que desciam para o Manu. E 2011 foi também o ano em que a tensão voltou a fazer vítimas. Em outubro, um guarda-parque foi ferido gravemente por flecha no posto de controle de Pakitza, no Manu. Em novembro, Nicolás "Shaco" Flores, um homem matsigenka da comunidade de Diamante que havia anos deixava os isolados colherem em sua roça e tentava se aproximar deles, foi morto por uma flecha no peito.

Em dezembro de 2014, um grupo grande — os moradores falaram em até duzentas pessoas — entrou na comunidade yine de Monte Salvado, no Las Piedras, quando a maior parte dos moradores estava fora por causa de eleições locais. Levaram panelas, facões, corda e comida, mataram animais domésticos e voltaram para a mata. Cinquenta e cinco pessoas que tinham se abrigado no posto de vigilância foram retiradas. Era, segundo a FENAMAD, a terceira vez naquele ano que o grupo chegava à comunidade; a federação chamou o episódio de "ato de desespero", provocado por madeireiros ilegais e narcotraficantes no território.

Em 2015 o Ministério da Cultura instalou um posto permanente no alto Madre de Dios, com agentes que falavam yine. Pela primeira vez houve conversa regular, na beira do rio: alguns indivíduos voltavam a cada poucos dias, pediam bananas e facões, e deixaram claro que não queriam morar em aldeia. No mesmo ano, em maio, um jovem matsigenka de Shipetiari, Leonardo Pérez, foi morto por flecha quando um grupo de cerca de trinta mashco piro passou pela comunidade.

"Algo mudou" O antropólogo Glenn Shepard, que conhecia Shaco Flores, resumiu a perplexidade da época à National Geographic: gente que antes fazia enorme esforço para se esconder estava agora procurando o contato. A pergunta que ninguém conseguiu responder com segurança — e que atravessa este dossiê — é se procurar é a palavra certa, ou se "ser empurrado" descreve melhor.

052024: o ano das flechas

Nos dias 26 e 27 de junho de 2024, mais de cinquenta mashco piro apareceram numa praia do Las Piedras, diante de Monte Salvado, pedindo comida aos moradores da outra margem. Em julho, a Survival International divulgou fotografias e vídeo do encontro, feitos por moradores, ressaltando que a praia ficava a poucos quilômetros de concessões madeireiras. As imagens correram o mundo.

Por que essas fotos não estão aqui Elas têm direitos reservados, e isso bastaria. Mas a razão principal é outra: são retratos nítidos de pessoas que não consentiram em ser fotografadas, que não sabem o que é uma página na internet e que, pela própria escolha de vida, recusam exatamente esse tipo de exposição. A organização que as divulgou fez um cálculo — publicar para pressionar o governo. É um cálculo legítimo para quem faz campanha. Para um arquivo como este, que não faz, a regra é não reproduzir.

O que veio depois mostrou que a praia era o lado tranquilo da história. Em 27 de julho, segundo a FENAMAD, um madeireiro foi ferido por flecha num acampamento de extração ilegal. Em 29 de agosto, na quebrada San Juan, bacia do rio Pariamanu — afluente do Las Piedras —, um grupo de trabalhadores abrindo uma trilha na área de ampliação da reserva foi atacado. Dois corpos foram recuperados, com ferimentos de flecha, e levados a Puerto Maldonado.

O número de mortos é o primeiro ponto em que as versões divergem, e a divergência merece ser mostrada como é. A FENAMAD e a imprensa internacional falaram em dois mortos, um ferido e dois ou mais desaparecidos. A subprefeita regional de Madre de Dios, com base no relato do único sobrevivente, chegou a falar em cinco mortos; só dois corpos foram recuperados e identificados. O segundo ponto é o que o grupo fazia ali: a primeira versão foi de limpeza numa concessão de castanha; no local foram encontrados indícios de extração ilegal de madeira. Também não houve confirmação oficial de que os trabalhadores fossem empregados da madeireira detentora da concessão vizinha.

Essa madeireira é a Maderera Canales Tahuamanu, uma das empresas com concessões no território usado pelos mashco piro, que abriu cerca de 190 quilômetros de estradas para caminhões na região, segundo a imprensa internacional. Em 30 de agosto, um dia depois do ataque, o FSC — o selo internacional de manejo florestal — suspendeu a certificação da empresa por oito meses, citando a localização da concessão em relação ao território dos isolados. A Survival chamou a suspensão de "metade do necessário"; o Ministério da Cultura anunciou investigação com o Ministério Público e a polícia.

Em 26 de outubro, numa quebrada perto de Monte Salvado, cerca de cem mashco piro armados foram avistados, e um agente de proteção da FENAMAD foi atingido por flecha no ombro. A comunidade yine de Monte Salvado foi evacuada para Puerto Maldonado em voos da Força Aérea. Somados os avistamentos do ano, segundo levantamento citado pela Mongabay, mais de quatrocentas pessoas foram vistas em 2024.

Quem diz o quê As organizações indígenas e a Survival atribuem a escalada à exploração madeireira — legal e ilegal — dentro ou na borda do território. O governo peruano reforçou a vigilância, mas não cancelou concessões. O relatório da Comissão Interamericana registra que, formalmente, nenhuma concessão florestal se sobrepõe à reserva de 2002; o estudo de 2016 identificou atividade dentro da área que deveria ter sido incorporada a ela. As duas afirmações são verdadeiras ao mesmo tempo, e é exatamente por isso que a ampliação importa.

062025–2026: a disputa no papel

A briga de 2025 e 2026 não se deu na floresta, mas em comissões, projetos de lei e tribunais — e é ali que o futuro dos mashco piro está sendo decidido.

Na comissão. Em dezembro de 2024, a comissão multissetorial que deveria concluir a ampliação da reserva voltou a se reunir. Segundo atas obtidas pelo OjoPúblico, a vice-ministra de Políticas e Supervisão do Desenvolvimento Agrário, do Ministério da Agricultura, opôs-se à ampliação e defendeu a manutenção das catorze concessões florestais na área; a votação foi adiada. O governo regional de Madre de Dios e prefeituras da região também se opõem.

No Congresso. Em 26 de agosto de 2025, o deputado Juan Carlos Mori Celis apresentou o Projeto de Lei 12.215, que muda a Lei PIACI para obrigar o Executivo a submeter ao Congresso, a cada seis meses, uma avaliação de todas as reservas, com a possibilidade de mantê-las, modificá-las ou extingui-las, e de revisar a cada dois anos a própria classificação dos povos como isolados. A AIDESEP, maior organização indígena amazônica do país, e a plataforma de federações que inclui a FENAMAD reagiram dizendo que as reservas passariam a viver em revisão permanente "até serem anuladas". Um projeto anterior com objetivo semelhante, o 3.518, de 2022, foi arquivado depois da reação indígena. Em dezembro de 2025, a Comissão de Povos Andinos, Amazônicos e Afro-Peruanos do Congresso aprovou por unanimidade o arquivamento do 12.215.

No tribunal. O caso tem uma linha do tempo longa. Em 2005 a FENAMAD pediu medidas urgentes à Comissão Interamericana de Direitos Humanos; em 2007 elas foram concedidas e continuam vigentes. Em 2011 veio a petição formal. Em 2022, a Comissão concluiu, no Relatório 397/22, que o Peru violou direitos dos mashco piro — propriedade coletiva, autodeterminação, garantias judiciais, direitos culturais. Em 1º de novembro de 2024, levou o caso à Corte Interamericana. É o primeiro caso sobre povos isolados no Peru a chegar àquele tribunal. Em 2025, depois de o Peru aprovar a Lei 32.301, que amplia o controle sobre organizações não governamentais e prevê multas pesadas a quem apoie ações contra o Estado, a Corte ordenou, a pedido da FENAMAD e da EarthRights International, que o país não punisse as entidades por litigar o caso.

Nos dias 24 e 25 de setembro de 2026, a Corte realizou em Montevidéu a audiência pública do caso. A FENAMAD e a EarthRights pediram que o tribunal ordene a conclusão do processo, aberto em 2014, que converte a reserva territorial em reserva indígena, a proteção intangível do território ancestral, cordões sanitários, o reconhecimento do sistema de vigilância comunitária mantido pela federação há vinte e cinco anos e o cancelamento de todos os projetos extrativos de grande escala "em qualquer etapa" dentro dele. A sentença ainda não saiu.

Uma confusão que já circula Há textos em circulação dizendo que a Corte Interamericana "já condenou" o Peru no caso mashco piro. Não condenou. Quem concluiu pela violação, em 2022, foi a Comissão — órgão que investiga e acusa. A Corte, que julga, ouviu as partes em setembro de 2026 e ainda não decidiu. A diferença é a mesma que entre denúncia e sentença.

07As leituras, da mais sóbria à mais improvável

Peso de evidênciaAlto

Os aparecimentos são sintoma de pressão sobre o território

É a leitura das organizações indígenas, da Survival e de boa parte dos antropólogos, e o registro a sustenta: os encontros se concentram na bacia do Las Piedras, onde estradas madeireiras avançaram; vêm acompanhados de saques de ferramentas e comida; e o pico de 2024 coincide com a abertura de trilhas na área de ampliação nunca efetivada. Madeira ilegal, garimpo e narcotráfico na região apertam a caça e a pesca de que um povo nômade depende.

O limite dessa leitura é que ela explica a direção do movimento, mas não tudo nele. Ninguém mediu a caça disponível no território, nem sabe em detalhe por onde os grupos circulavam antes.

Imagem de satélite em falsa cor: floresta em preto cortada por longas manchas claras e esburacadas de garimpo ao longo de rios sinuosos, com uma estrada e lotes desmatados no alto
Acervo — garimpo ilegal de ouro em Madre de Dios visto de satélite, em setembro de 2019: a floresta aparece em preto e as cavas, em amarelo. Não é o território dos mashco piro — fica ao sul, na zona de amortecimento da Reserva Nacional Tambopata, junto à Rodovia Interoceânica —, mas mostra o tipo de frente que avança sobre a floresta do departamento. Imagem Coordenação-Geral de Observação da Terra (INPE), CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.
Peso de evidênciaEm disputa

Há também razões internas que não conhecemos

Antropólogos peruanos lembram que os mashco piro mantêm com os vizinhos uma relação antiga feita de troca e de guerra, e que o interesse por metal — facões, panelas — é anterior à escalada recente. Mudanças internas, como a chegada de uma nova geração, divisões entre famílias ou disputas com outros grupos isolados, podem explicar parte dos movimentos.

É plausível, e é uma ressalva saudável contra explicações de causa única. O problema é que é, por definição, inverificável: falar das razões internas de um povo que não fala conosco é especular.

Peso de evidênciaMinoritária

O contato é inevitável, e deveria ser planejado

Em 2015, os antropólogos Robert Walker e Kim Hill defenderam na revista Science que, diante de povos que já estão saindo do isolamento, contato controlado — com equipe médica e vacinação prontas — seria menos letal que o contato desordenado com madeireiros e garimpeiros. Os encontros regulares de 2015 no alto Madre de Dios deram força ao argumento.

A objeção, defendida pela maioria das organizações indígenas e por sertanistas experientes, é que a história do contato planejado na Amazônia — no Peru e no Brasil — é uma história de epidemias. E que a escolha cabe a eles: o direito ao isolamento inclui o direito de decidir se e quando sair dele.

Peso de evidênciaNula

São "intocados", um povo de antes da história

É a moldura das manchetes, e a seção 02 a desmonta. Os mashco piro não ficaram fora da história: foram atropelados por ela. Falam quase a mesma língua de vizinhos com quem conviveram, conhecem o metal, o barco e o seringalista, e escolheram o isolamento depois de ver o que o mundo de fora fazia. O nome correto para isso é isolamento voluntário. "Intocado" apaga justamente a parte em que eles foram tocados — e reagiram.

08Cronologia

  • anos 1880O ciclo da borracha chega ao alto Ucayali. A peonagem por dívida substitui a escravidão abolida em 1854.
  • 1891A maior parte dos piro do Urubamba está endividada com o seringalista Carlos Fermín Fitzcarrald.
  • 1893–1894Fitzcarrald abre a passagem por terra até o Manu. Seu bando armado massacra grande parte dos mashco piro do alto Manu.
  • 1897–1909Mashco e piro são escravizados no Purús e no Madre de Dios sob Carlos Scharff. Os sobreviventes se afastam para as cabeceiras.
  • 1997Criada a reserva territorial do alto Purús, que em 2016 vira a Reserva Indígena Mashco Piro, de 816.057 hectares.
  • 22 de abril de 2002Criada a Reserva Territorial Madre de Dios, com 829.941 hectares — menor que o território proposto pela FENAMAD.
  • maio de 2006Lei 28.736, a Lei PIACI, estabelece o regime de proteção aos povos isolados e em contato inicial.
  • 2007A Comissão Interamericana concede medidas cautelares aos mashco piro. Em setembro, cerca de vinte pessoas são filmadas de helicóptero no Las Piedras.
  • outubro e novembro de 2011Um guarda-parque é ferido por flecha em Pakitza, no Manu. Em novembro, Nicolás "Shaco" Flores é morto perto de Diamante.
  • dezembro de 2014Um grupo grande entra em Monte Salvado e leva ferramentas e comida. Cinquenta e cinco moradores são retirados.
  • 2015Posto permanente do Ministério da Cultura no alto Madre de Dios; primeiras conversas regulares por intérpretes yine. Em maio, Leonardo Pérez é morto em Shipetiari.
  • setembro de 2016Comissão multissetorial aprova converter a reserva de Madre de Dios em reserva indígena e ampliá-la em cerca de 240 mil hectares. Não é executado.
  • 2022Relatório 397/22 da Comissão Interamericana conclui que o Peru violou direitos dos mashco piro.
  • 26–27 de junho de 2024Mais de cinquenta mashco piro aparecem diante de Monte Salvado pedindo comida. As imagens são divulgadas em julho.
  • 29 de agosto de 2024Ataque na bacia do Pariamanu: dois trabalhadores mortos confirmados, outros desaparecidos. No dia seguinte o FSC suspende o selo da Maderera Canales Tahuamanu.
  • 26 de outubro de 2024Um agente de proteção é ferido por flecha perto de Monte Salvado; a comunidade é evacuada.
  • 1º de novembro de 2024A Comissão Interamericana leva o caso à Corte — o primeiro sobre povos isolados no Peru.
  • janeiro de 2025No Brasil, a Funai restringe o uso da Terra Indígena Mashco do Rio Chandless, no Acre, com 538 mil hectares.
  • 26 de agosto de 2025Projeto de Lei 12.215 propõe revisão periódica de todas as reservas para povos isolados pelo Congresso.
  • dezembro de 2025O PL 12.215 é arquivado por unanimidade na Comissão de Povos Andinos, Amazônicos e Afro-Peruanos.
  • 24–25 de setembro de 2026Audiência pública do caso mashco piro na Corte Interamericana, em Montevidéu. Sentença pendente.

09O que continua em aberto

Quantos são, com qualquer margem de erro razoável. Se são um povo ou vários grupos aparentados que circulam por áreas diferentes. O que contam sobre a borracha, se contam. Por que alguns grupos procuraram conversa em 2015 e outros atiram em quem abre trilha em 2024 — se é a mesma gente mudando de estratégia ou gente diferente com experiências diferentes.

E três perguntas que dependem de nós, não deles. Se a ampliação aprovada em 2016 vai sair do papel, ou se as concessões dentro dela vão ser mantidas. O que a Corte Interamericana vai decidir, e se o Peru vai cumprir. E se a lei que hoje proíbe o contato continuará em pé diante de novas tentativas de rever as reservas — duas já foram arquivadas.

O caso que se mede pela borda Na Sentinela do Norte, o mar faz metade do trabalho de proteção: há um recife e nove quilômetros de água em volta. Os mashco piro não têm recife. Têm uma linha num mapa, e do outro lado da linha, estradas. Por isso este dossiê não termina com uma resposta sobre eles — termina com a observação de que cada vez que aparecem numa praia, o que se está vendo, de fato, é a borda da floresta chegando perto demais.

10Perguntas frequentes

Quem são os mashco piro?

Um povo indígena em isolamento voluntário no sudeste do Peru, com território que chega ao Acre, no Brasil. “Mashco” é rótulo dado por vizinhos e forasteiros, com sentido pejorativo; em 2015, agentes que falam yine relataram que o grupo preferia ser chamado de nomole, “parentes”. Ver quem são.

Onde vivem os mashco piro?

Nas cabeceiras do Madre de Dios, do Las Piedras e do Tahuamanu, no Peru, até as nascentes do Acre, do Iaco, do Chandless e do Purús, já no Brasil. No papel, o território está fatiado em reservas com nomes e datas diferentes. Ver o território no papel.

Que língua falam os mashco piro?

Uma variante do piro, ou yine, da família arawak — a mesma língua das comunidades yine que vivem rio abaixo. Por isso os poucos diálogos registrados aconteceram através de intérpretes yine. Ver quem são.

Quantos mashco piro existem?

Ninguém contou. O Ministério da Cultura do Peru trabalha com cerca de setecentos e cinquenta, mas toda estimativa é extrapolada de vestígios e sobrevoos; em 1976 falava-se em vinte a cem pessoas, e o IWGIA estimou cem a duzentos e cinquenta em 1998. Ver quem são.

Por que os mashco piro vivem isolados?

Muito provavelmente porque descendem de quem fugiu do ciclo da borracha, depois da matança de grande parte dos mashco piro do alto Manu pelo bando de Fitzcarrald, entre 1893 e 1894. O isolamento não é um estado original: é uma resposta. Ver a borracha e a fuga.

11Fontes consultadas

Este dossiê é texto autoral. As fontes abaixo foram consultadas para apuração de datas, números e atribuições; nenhuma foi reproduzida.

  • Verbetes enciclopédicos consolidados sobre os mashco piro e os piro (yine) — língua, estimativas históricas de população e período da borracha.
  • Resolução Ministerial 0427-2002-AG (Reserva Territorial Madre de Dios); Decreto Supremo 007-2016-MC (Reserva Indígena Mashco Piro); Lei 28.736, de 2006.
  • Comissão Interamericana de Direitos Humanos — Relatório 397/22 e nota de remessa do Caso 13.572 à Corte Interamericana, 2024; EarthRights International — cronologia do caso.
  • Mongabay (2024, 2025 e 2026), Pressenza e Servindi (setembro de 2026) — confrontos de 2024, suspensão do FSC e audiência de Montevidéu.
  • OjoPúblico, fevereiro de 2025 — atas da comissão multissetorial e posição do Ministério da Agricultura sobre a ampliação.
  • Infobae, La República e Inforegión (2024) — ataques de agosto e outubro de 2024, versões sobre o número de mortos e evacuação de Monte Salvado.
  • DAR (Derecho, Ambiente y Recursos Naturales) — nota de 3 de dezembro de 2025 sobre o arquivamento do Projeto de Lei 12.215 na comissão.
  • Organização dos Povos Indígenas Isolados e Survival International — Projeto de Lei 12.215/2025 e reação das organizações indígenas; Survival International sobre os avistamentos de 2014 e 2024.
  • National Geographic, 2015 — o posto do alto Madre de Dios, as mortes de 2011 e 2015 e o debate sobre contato controlado; Walker e Hill, Science, 2015.
  • Instituto Socioambiental, janeiro de 2025 — portaria da Funai sobre a Terra Indígena Mashco do Rio Chandless.
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