Dossiê 011
Dossiê 011 · Últimos Isolados · Em aberto

As flechas da Sentinela do Norte

Todos os outros dossiês deste arquivo tratam de perguntas que ainda não conseguimos responder. Este trata da única em que a resposta existe, está viva, fala uma língua que ninguém classificou — e já deixou claro, por mais de dois séculos, que não pretende ser entrevistada.

Onde
Arquipélago de Andamão, Índia
Coordenadas
11°34′N 92°14′E
Área
59,67 km²
População
estimada entre 50 e 200
Último contato amistoso
fevereiro de 1991
Situação legal
aproximação proibida

A cerca de cinquenta quilômetros a oeste de Port Blair, no golfo de Bengala, há uma ilha quase quadrada — sete vírgula oito quilômetros por sete — cercada por um recife de coral que impede qualquer embarcação de calado médio de chegar perto. Vista de cima, é uma mancha de floresta densa com uma orla estreita de areia clara. Não há porto, não há clareira de aldeia visível do ar, não há fumaça permanente. Há praia, mata e, de vez em quando, figuras que saem da mata.

Quando uma embarcação se aproxima o suficiente, essas figuras descem até a linha da água com arcos longos e atiram. Isso aconteceu em 1867, em 1974, em 1981, em 2004, em 2006 e em 2018. É o dado mais consistente que temos sobre aquele lugar, e é praticamente o único que se repete sem variação.

O que torna a Sentinela do Norte diferente de tudo o mais neste arquivo é simples: aqui o obstáculo não é a erosão, nem o soterramento, nem a falta de instrumento. É uma decisão — tomada por pessoas vivas, comunicada com clareza absoluta, e finalmente respeitada por um Estado nacional depois de mais de um século insistindo no contrário.

01O que se vê de longe

Comece pelo que é sólido. A ilha tem 59,67 km², o que dá pouco mais que a ilha de Manhattan, e é território soberano da República da Índia dentro do território de Andamão e Nicobar. O recife que a circunda é a primeira razão física do isolamento: ele quebra a aproximação de qualquer casco maior que uma lancha, e obriga quem chega a fazer a última etapa em bote, exposto, lentamente, à vista de quem está na praia.

Imagem de satélite da ilha Sentinela do Norte: um quase quadrado de floresta fechada cercado por um anel de recife claro e pelo mar
Acervo — a Sentinela do Norte vista do espaço: quase um quadrado de floresta, e em volta o recife que quebra a aproximação de qualquer casco maior que uma lancha. É assim, de longe, que se conhece a ilha. Imagem NASA Earth Observatory (Jesse Allen, dados do satélite EO-1), domínio público.

Sobre a população, é preciso ser honesto quanto ao método. Todos os números que circulam foram obtidos por contagem a distância, de barco ou de helicóptero, somando as pessoas visíveis na orla num dia específico. O censo indiano de 2001 registrou 39 pessoas; o de 2011 registrou 15 — número que a imprensa indiana descreveu, com razão, como um palpite. Uma circum-navegação de 2014 contou 16. O manual do Anthropological Survey of India de 2016 trabalha com uma faixa de 100 a 150. A literatura mais cautelosa fala em algo entre 50 e 200.

Por que os censos não fecham Contar de fora uma população que vive sob dossel fechado e que se afasta quando um barco aparece não produz demografia — produz um retrato de quantas pessoas estavam na praia naquele instante. É por isso que os dados oficiais oscilam entre quinze e cento e cinquenta sem que nada tenha acontecido na ilha. A oscilação está no observador, não no observado.
A ilha Sentinela do Norte vista pela janela de um avião comercial, com a asa no alto e o recife turquesa em volta da floresta
Acervo — a ilha pela janela de um voo comercial. Nenhuma fotografia livre mostra a Sentinela de perto, e nenhuma deveria: chegar perto é proibido por lei, e é justamente o que os sentineleses recusam. Foto PJeganathan, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
59,67 km² Área da ilha. Cerca de 7,8 por 7,0 km, quase um quadrado, quase toda coberta por floresta primária.
≈ 50 km Distância até Port Blair, a capital do território. A ilha fica a oeste, isolada do grupo principal do arquipélago.
1880 Ano do único desembarque em que gente foi levada à força da ilha. Seis pessoas. Duas morreram em Port Blair.
1991 Ano do primeiro contato pacífico documentado. O programa oficial de visitas foi encerrado poucos anos depois.

Sobre tecnologia, o que se sabe vem de observação direta e de objetos vistos em uso. Eles usam arco e flecha para caça terrestre e canoas de fundo raso para pesca na laguna, movidas por varas de fundo em vez de remos. As pontas de flecha e as lâminas de enxó são maiores e mais pesadas que as dos outros grupos andamaneses, e são de metal — recuperado de navios encalhados no recife e trabalhado por eles. Em 1974 aceitaram e guardaram panelas de alumínio deixadas na praia.

Esse detalhe do metal merece atenção, porque desmonta sozinho o clichê que acompanha o assunto. Um povo que identifica ferro no casco de um naufrágio, o extrai, o reforma e o adapta à própria tecnologia de caça não está congelado em tempo algum. Está fazendo exatamente o que qualquer sociedade faz com um recurso novo: incorporando o que serve e descartando o que não serve.

Esquema da ilha Sentinela do Norte e da zona de exclusão Diagrama esquemático mostrando a ilha, quase quadrada, com cerca de 7,8 por 7,0 quilômetros, cercada por um recife e por uma zona de exclusão legal de cinco milhas náuticas, cerca de 9,3 quilômetros. Uma seta indica a direção de Port Blair, a cerca de cinquenta quilômetros a leste, fora de escala. SENTINELA DO NORTE 7,8 × 7,0 km · 59,67 km² ZONA DE EXCLUSÃO · 5 MILHAS NÁUTICAS (9,3 km) — contorno tracejado: recife de coral ≈ 50 km · fora de escala PORT BLAIR 5 km N
Esquema — diagrama próprio. As dimensões da ilha e o raio da zona de exclusão estão em escala, a 8 px por quilômetro; a direção de Port Blair é indicada, não desenhada em escala. O contorno da costa e o traçado do recife são simplificados e não devem ser lidos como carta náutica.

02O inventário dos contatos

A lista completa de aproximações documentadas é curta o bastante para caber numa página, e é o registro mais útil que existe sobre o assunto — porque mostra um padrão de comportamento, não uma sucessão de acidentes.

Em 1771, o levantamento hidrográfico da Companhia das Índias Orientais passou ao largo e anotou no diário de bordo uma multidão de luzes na praia. É a primeira menção europeia. Ninguém desembarcou.

Em 1867, o navio mercante Nineveh encalhou no recife. Cento e seis sobreviventes chegaram à praia e foram atacados; resistiram alguns dias até que a Marinha Real os retirasse. Esse é o registro fundador da reputação da ilha, e é também o primeiro caso em que a resposta veio depois de uma chegada não solicitada.

Em janeiro de 1880, o oficial colonial britânico Maurice Vidal Portman desembarcou com uma força armada. Encontrou a mata vazia e capturou seis pessoas: um casal idoso e quatro crianças. Levou-os a Port Blair. O casal adoeceu e morreu em poucas semanas. As crianças foram devolvidas à ilha com presentes.

Se existe um evento capaz de explicar uma política de recusa mantida por cinco gerações, ele tem data, nome de funcionário e relatório administrativo arquivado. Sobre o desembarque de 1880

O intervalo seguinte é longo. A Índia retomou as aproximações a partir de 1967, sob o antropólogo Triloknath Pandit, do Anthropological Survey of India, com um método de deixar presentes na orla e recuar. Em 1974, uma equipe de filmagem acompanhada de polícia armada desembarcou para registrar um encontro e deixou na areia cocos, panelas de alumínio, um porco vivo, um carrinho e uma boneca. A resposta foi uma saraivada de flechas; uma delas atingiu a coxa esquerda do diretor. Os sentineleses lancearam e enterraram o porco e a boneca, e ficaram com os cocos e as panelas.

Vale reler essa frase, porque ela é muito mais informativa do que parece. Não foi rejeição indiscriminada. Foi triagem: o alimento vegetal e o metal entraram, o porco vivo e a boneca foram lanceados e enterrados. Alguém ali olhou aquele conjunto de objetos, classificou e decidiu item por item.

Em 2 de agosto de 1981, o cargueiro Primrose encalhou no recife durante o monsão. Os tripulantes viram gente armada se acumular na praia e o capitão emitiu um pedido de socorro estimando mais de cinquenta arqueiros e avisando que não podia garantir a vida da tripulação. Eles montaram guarda em turnos com pistolas sinalizadoras e barras de ferro até que um helicóptero contratado por uma operadora de petróleo os retirasse, cerca de uma semana depois. O casco enferrujado do Primrose permaneceu encalhado ali por décadas — e forneceu à ilha uma quantidade notável de metal.

Em 4 de janeiro de 1991, a rotina de presentes finalmente produziu o encontro. Uma equipe de treze pessoas, dirigida por S. Awaradi, com o médico Arun Mullick e a antropóloga Madhumala Chattopadhyay, jogou cocos na água. Homens armados entraram no mar para recolhê-los, e a cena se repetiu até acabarem os cocos. No mesmo dia, um jovem apontou o arco para Chattopadhyay — e uma mulher sentinelesa fez com que ele baixasse a arma. Na terceira ida, a equipe entrou na água ao lado do bote e entregou cocos em mãos. Houve novo encontro em 21 de fevereiro.

O gesto de 1991 A mulher que empurra o arco para baixo é, de longe, o dado antropológico mais rico de todo o dossiê. Ela mostra que a reação à chegada de estranhos não é reflexo nem instinto coletivo: é uma decisão discutida dentro do grupo, em que há posições divergentes e em que alguém tem autoridade para interromper a violência de outro. Não é uma ilha que reage. É uma sociedade que delibera.

03O precedente de Andamão

Para entender por que a Índia desistiu, é preciso olhar para as ilhas vizinhas — porque lá o experimento já foi feito, e o resultado está contabilizado.

Quando o contato sustentado começou, no fim do século XVIII, estimava-se algo em torno de sete mil andamaneses distribuídos pelo arquipélago. O primeiro assentamento britânico é de 1789; em quatro anos as doenças trazidas por ele haviam devastado as populações costeiras. Depois vieram as epidemias de sarampo, pneumonia e gripe. Uma única epidemia de sarampo no século XIX matou cerca de metade da população andamanesa.

Os números do grupo Grande Andamanês contam o resto sozinhos: seiscentas pessoas em 1901, dezenove em 1961. Hoje o grupo existe — são pouco mais de cinquenta — mas a maior parte de suas línguas morreu com os últimos falantes. Os jarawas eram 380 no censo de 2011; os onges, 101.

≈ 7.000 Andamaneses estimados no fim do século XVIII, antes do contato sustentado com o mundo exterior.
600 Grandes andamaneses em 1901, já depois de um século de assentamento, doença e "lares" coloniais.
19 Grandes andamaneses em 1961. O menor número registrado. Não houve guerra, massacre nem fome: houve contato.
101 Onges no censo de 2011. Os sentineleses, isolados, podem ser hoje mais numerosos que os grandes andamaneses e os onges somados.

O mecanismo é imunológico e não tem nada de misterioso. Uma população separada do continente por milênios não carrega anticorpos para sarampo, gripe, tuberculose, coqueluche ou catapora. Um único visitante assintomático basta. E numa comunidade pequena o adoecimento simultâneo de todos os adultos derruba a caça, a pesca, a coleta de água e o cuidado com os doentes ao mesmo tempo — de modo que a mortalidade real supera em muito a letalidade da doença em si.

Foi esse raciocínio, e não sensibilidade abstrata, que encerrou o programa. As visitas oficiais foram interrompidas em meados dos anos 1990 — entre 1994 e 1997, conforme a fonte —, e a política passou a ser descrita por seus próprios executores como hands-off, eyes-on: mãos fora, olhos em cima. A Andaman and Nicobar Islands (Protection of Aboriginal Tribes) Regulation, de 1956, proíbe a viagem à ilha e a aproximação a menos de cinco milhas náuticas — cerca de 9,3 quilômetros. A Marinha e a Guarda Costeira patrulham o perímetro.

042004: a ilha subiu

Em 26 de dezembro de 2004, o terremoto de Sumatra-Andamão — um dos maiores já registrados por sismógrafo — soltou o tsunami que matou mais de duzentas mil pessoas em torno do oceano Índico. A placa se moveu debaixo do arquipélago inteiro. Partes de Andamão e Nicobar afundaram entre um e quatro metros. A Sentinela do Norte fez o contrário: foi erguida.

O soerguimento foi da ordem de um a dois metros, e a consequência imediata foi geográfica. O recife que cercava a ilha emergiu. As lagunas onde se pescava desapareceram em quase todo o perímetro, restando visível apenas a leste. A linha de costa avançou mar adentro. Em 23 de abril de 2005, quatro meses depois, o microssatélite Proba da Agência Espacial Europeia fotografou o resultado com o sensor CHRIS, a dezoito metros de resolução: a ilha aparecia literalmente alta demais na água.

Três dias após o terremoto, um helicóptero da Guarda Costeira indiana sobrevoou a ilha para verificar se havia sobreviventes. A resposta chegou em forma de flecha, disparada da praia contra a aeronave. Foi a confirmação, de longe e sem contato, de que o povo tinha sobrevivido e estava em condições de reagir.

A parte que raramente é contada é a que vem depois. Com as lagunas secas, a pesca de raso — que dependia delas e das canoas de vara — deixou de funcionar como antes. A ilha provavelmente teve de reorganizar a própria subsistência em torno de uma costa nova. Quando a tripulação do Primrose relatou, em 1981, ter visto gente construindo embarcações na praia, o detalhe pareceu pitoresco. Depois de 2004, ele parece outra coisa: a capacidade de refazer a frota.

052018: o caso Chau

John Allen Chau tinha 26 anos, era americano, formado em ciência do exercício, e planejava evangelizar os sentineleses desde o ensino médio. Em 2017 passou por um treinamento da organização missionária All Nations, no qual instrutores encenavam o papel de indígenas “hostis”. Tomou vacinas, cumpriu quarentena, estudou noções de linguística e de socorro médico. A preparação foi real; a premissa é que era falsa.

Em outubro de 2018 ele se instalou em Port Blair e pagou vinte e cinco mil rupias a pescadores locais para levá-lo até as imediações da ilha. Foi levado no fim da noite de 14 de novembro e nos dias 15 e 16 fez aproximações de caiaque levando uma Bíblia impermeável, cartões com desenhos, um peixe e uma bola de futebol como presentes. Tentou falar, cantou hinos e experimentou palavras em xhosa. Num dos avanços, um menino sentinelês disparou uma flecha que atravessou a Bíblia que ele segurava contra o peito.

Ele voltou ao barco, escreveu no diário que talvez aquela ilha fosse o último reduto de Satã na Terra, ponderou se estava enlouquecendo, e decidiu tentar de novo. Na última ida mandou os pescadores irem embora sem ele. Em 17 de novembro, do mar, eles viram o corpo ser arrastado pela praia e enterrado na areia.

O governo indiano abriu inquérito, prendeu sete pessoas por facilitar o acesso e, depois de consultar antropólogos, desistiu de recuperar o corpo. A justificativa foi exatamente a lógica deste dossiê: o risco de um confronto com uma equipe de resgate, e o risco sanitário de um desembarque, superavam qualquer benefício. O corpo continua lá.

Quem foi acusado, e de quê O inquérito indiciou os intermediários, não os sentineleses — e alguns pesquisadores questionaram até a abertura formal de um caso de homicídio, argumentando que o Estado não exerce jurisdição penal sobre uma população que ele próprio decidiu não contatar. A recomendação prática que saiu do episódio foi outra e mais útil: fiscalizar melhor os barcos de pesca que circulam na área, que são o vetor real de aproximação.

Chau não foi o primeiro nem o último. Em janeiro de 2006, dois pescadores indianos pescavam caranguejo ilegalmente perto da ilha quando o barco derivou para a praia durante a noite; foram mortos, e o helicóptero enviado localizou os corpos enterrados, mas recuou sob flechas. Em dezembro de 2022, três pescadores desapareceram e o barco deles foi avistado na Sentinela. Em março de 2025, outro cidadão americano desembarcou sozinho, deixou na areia uma lata de refrigerante e um coco, recolheu amostras de areia e foi preso ao voltar.

06As leituras, da mais sóbria à mais improvável

Peso de evidênciaAlto

A recusa é uma política, não um instinto

É a leitura que o próprio registro sustenta. Em 1974 houve triagem dos presentes: cocos e alumínio entraram, porco e boneca foram sepultados. Em 1991 houve aceitação repetida de cocos, entrega em mãos e a cena da mulher baixando o arco de um homem. Em 2018, um adolescente atirou contra uma Bíblia e o corpo foi enterrado, não abandonado.

Nada disso é reação automática. É um repertório de respostas diferentes para situações diferentes, com discordância interna visível. A conclusão econômica é que existe ali uma decisão coletiva sobre estrangeiros, e que ela foi tomada — e é sustentada — por gente que sabe o que está fazendo.

Peso de evidênciaEm disputa

A recusa é memória do século XIX

A hipótese é que a política de recusa se endureceu a partir de 1880, quando Portman levou seis pessoas e devolveu quatro crianças órfãs e possivelmente doentes. Há quem sustente que o episódio pode ter introduzido uma epidemia na ilha, e que a lição foi incorporada à tradição oral.

É plausível e tem um evento documentado por trás. O que falta é verificação: não temos acesso à memória oral sentinelesa, e o Nineveh mostra que a resposta armada já existia em 1867, treze anos antes de Portman. O trauma colonial provavelmente reforçou uma prática — mas não a inventou.

Peso de evidênciaMinoritária

O isolamento é abandono, e deveríamos contatar com cuidado

Existe uma posição acadêmica minoritária, defendida sobretudo por antropólogos que trabalham com povos isolados na Amazônia, segundo a qual o isolamento absoluto é insustentável no longo prazo: a pressão externa só aumenta, o contato acabará acontecendo de forma desordenada, e seria melhor que fosse planejado, com equipe médica presente e vacinação prévia.

O contra-argumento está nos números da seção 03. Contato planejado com equipe médica foi exatamente o que se tentou com os grandes andamaneses, e o grupo caiu de seiscentas pessoas para dezenove. O contato com os jarawas, iniciado por eles próprios em 1997–98, trouxe surtos de sarampo e exposição turística na estrada que corta o território deles. O histórico regional não favorece a tese.

Peso de evidênciaNula

São "humanos da Idade da Pedra", parados no tempo

É a moldura que domina a cobertura popular do assunto e não resiste ao primeiro dado. Eles trabalham metal recuperado de naufrágios. Adotaram alumínio em 1974. Sobreviveram à mudança da costa depois que o terremoto de 2004 levantou o recife e secou as lagunas. Fazem triagem de objetos desconhecidos com critério.

Nenhuma população humana está parada no tempo. Milhares de anos de história aconteceram na Sentinela do Norte como aconteceram em qualquer outro lugar — guerras, invenções, disputas, mudanças de regra, mortes, nascimentos. A diferença é que dessa história nós não temos uma linha. Chamar isso de "Idade da Pedra" é confundir a nossa ignorância com a biografia deles.

07Cronologia

  • 1771Um levantamento da Companhia das Índias Orientais passa ao largo e registra luzes na praia. Primeira menção escrita.
  • 1789Primeiro assentamento britânico no arquipélago. Em quatro anos as doenças devastam as populações costeiras de Andamão.
  • 1867O mercante Nineveh encalha no recife. Cento e seis sobreviventes resistem a ataques até serem retirados pela Marinha Real.
  • janeiro de 1880Maurice Vidal Portman desembarca com tropa e captura seis pessoas. O casal idoso morre em Port Blair; as quatro crianças são devolvidas.
  • 1901 · 1961O grupo Grande Andamanês cai de seiscentas pessoas para dezenove — o custo demográfico do contato, medido em censos oficiais.
  • 1967A Índia retoma as aproximações sob Triloknath Pandit, com o método de deixar presentes na orla e recuar.
  • 1974Equipe de filmagem desembarca; uma flecha atinge a coxa do diretor. O porco e a boneca são lanceados e enterrados; cocos e panelas, aceitos.
  • 2 de agosto de 1981O cargueiro Primrose encalha. A tripulação monta guarda por cerca de uma semana até ser retirada de helicóptero.
  • 4 de janeiro de 1991Primeiro contato pacífico documentado. Cocos entregues em mãos; uma mulher sentinelesa faz um jovem baixar o arco. Novo encontro em 21 de fevereiro.
  • meados dos anos 1990O programa oficial de visitas é encerrado. A política passa a ser explicitamente de não contato.
  • 26 de dezembro de 2004O terremoto de Sumatra-Andamão ergue a ilha de um a dois metros, expõe o recife e seca as lagunas. Três dias depois, uma flecha responde ao helicóptero da Guarda Costeira.
  • janeiro de 2006Dois pescadores morrem após o barco derivar para a praia. O helicóptero enviado localiza os corpos enterrados, mas recua sob flechas.
  • 17 de novembro de 2018O missionário John Allen Chau é morto após desembarcar sozinho. Sete intermediários são presos; a Índia desiste de recuperar o corpo.
  • dezembro de 2022 · março de 2025Três pescadores desaparecem e o barco é avistado na ilha. Dois anos depois, outro americano desembarca sozinho, deixa objetos na areia e é preso ao retornar.

08O que continua em aberto

Quase tudo. Não sabemos quantos são, com que margem de erro. Não sabemos qual língua falam — sabe-se apenas que não é inteligível para jarawas nem para onges, o que sugere separação muito antiga dos outros grupos andamaneses, mas a classificação permanece em branco. Não sabemos como se organizam, o que herdaram, o que contam sobre 1880 ou sobre 2004, nem se contam.

Também não sabemos o que aconteceu ali durante a maior parte do tempo em que estiveram ali. A profundidade da ocupação humana no arquipélago é medida em dezenas de milhares de anos, e nada disso está registrado em nenhum lugar que possamos consultar.

Três perguntas seguem em aberto, e apenas uma delas é sobre eles. Se o isolamento é sustentável — a pressão de pescadores, turistas e missionários só cresceu desde 2018, e a fiscalização de um perímetro de nove quilômetros em mar aberto é limitada. O que o soerguimento de 2004 fez à ilha no longo prazo — um recife exposto e lagunas secas alteram a base alimentar de uma população pequena, e ninguém tem como medir isso sem chegar perto. E por quanto tempo nós aguentamos não saber — que é a pergunta sobre nós.

O caso que inverte o arquivo Em Göbekli Tepe, na Amazônia, em Gizé e nos ossos de Denisova, o que faltava era instrumento: quando ele apareceu — lidar, múon, sequenciador — a resposta veio. A Sentinela do Norte é o caso em que o instrumento existe, é banal, e usá-lo é o erro. Um desembarque de uma tarde resolveria metade das perguntas deste dossiê e poderia custar a população inteira. É o único mistério deste arquivo cuja solução correta é deixá-lo em aberto — e talvez, por isso mesmo, o mais difícil de publicar.

09Perguntas frequentes

Onde fica a ilha Sentinela do Norte?

No arquipélago de Andamão, no golfo de Bengala, a cerca de cinquenta quilômetros a oeste de Port Blair. É território da Índia, dentro de Andamão e Nicobar, e tem 59,67 km², quase um quadrado de floresta cercado por recife. Ver o que se vê de longe.

Quem vive na ilha Sentinela do Norte?

Os sentineleses, um povo que recusa contato. Quantos são, não se sabe: as contagens são feitas a distância e oscilam — o censo de 2011 registrou 15, o manual de 2016 do Anthropological Survey of India trabalha com 100 a 150 —, e a literatura mais cautelosa fala em algo entre 50 e 200. A língua deles não foi classificada.

Por que a ilha Sentinela do Norte é tão perigosa?

Porque quem se aproxima costuma ser recebido com flechas — foi assim em 1867, 1974, 1981, 2004, 2006 e 2018. O registro, porém, mostra uma decisão coletiva, não um reflexo: em 1991 houve encontros pacíficos. E o perigo corre nos dois sentidos, porque um único visitante pode levar doenças contra as quais eles não têm anticorpos. Ver o precedente de Andamão.

É possível visitar a ilha Sentinela do Norte?

Não. Uma regulamentação de 1956 proíbe a viagem à ilha e a aproximação a menos de cinco milhas náuticas, cerca de 9,3 quilômetros, e a Marinha e a Guarda Costeira patrulham o perímetro. Desde meados dos anos 1990 a política indiana é de não contato.

Quem morreu na ilha Sentinela do Norte?

O caso mais conhecido é o do missionário americano John Allen Chau, morto em novembro de 2018 depois de desembarcar sozinho; a Índia desistiu de recuperar o corpo. Em 2006, dois pescadores que derivaram até a praia também foram mortos. Ver o caso Chau.

10Fontes consultadas

Este dossiê é texto autoral. As fontes abaixo foram consultadas para apuração de datas, números e atribuições; nenhuma foi reproduzida.

  • Verbetes enciclopédicos consolidados sobre a ilha Sentinela do Norte, os sentineleses e os povos andamaneses — cronologia dos contatos, dados censitários e legislação.
  • Andaman and Nicobar Islands (Protection of Aboriginal Tribes) Regulation, 1956 — base legal da proibição de aproximação.
  • Agência Espacial Europeia — registro do microssatélite Proba/CHRIS sobre o soerguimento da ilha após o terremoto de 26 de dezembro de 2004, imagem de 23 de abril de 2005.
  • Survival International — posição institucional sobre povos não contatados e sobre o histórico demográfico dos grupos andamaneses contatados.
  • Registros públicos sobre a expedição de 4 de janeiro de 1991 — equipe, método e relato de Madhumala Chattopadhyay e Triloknath Pandit.
  • Cobertura jornalística e documentação do inquérito indiano sobre a morte de John Allen Chau, novembro de 2018.
  • National Geographic — reportagem sobre o isolamento da ilha e sobre a pressão externa contemporânea.
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